quarta-feira, 27 de agosto de 2008

PERDEU A CABEÇA PERDENDO AS HORAS JOGOS, VIAGENS E A REGRA DE AMARRAR




Canoas, 23/08/08, meus amigos (do Ethon*)

ou: se tu falas muito, seja um banana universal e canta (na) tua(,) aldeia
Uma das mais terríveis tarefas, depois de poucas boas coletâneas, é responder na prática à proliferação de identificações rasteiras de obras e autores: Borges é autor de Ficções, mas também de infinitos clichés de um imaginário vivo que “Os olhos de Borges” soube teatralizar. Mas com Chico, ah, com chico é diferente, e cada um terá seu disco predileto, uma seleção do “essencial” do artista, uma noção do que é mais “clássico” no seu repertório, ou importante, e conseqüentemente criticará todos os demais recortes, num ajuizamento ordeiro. Estou para ver. O espetáculo em cartaz (no teatro de Câmara Tulio Piva) pela pesquisa Magdala em performance e convidados, Buarqueanas, apurou algumas idéias do querido trilhadas pelo próprio teatro, que tinha em tão alta conta pelo processo criativo e social. Resolvida a eleição imperativa do Francisco Buarque de Holanda em questão, na vertente “Calabar”, há tratos significativos com nostalgias e aspectos pitorescos, intensidades vivenciais e atualidade das cenas dramatizadas na interpretação que se retorcem no imaginário coreografado com louvor dos dramalhões e absurdos de vidas e mortes amorosas.
Quem está, ainda hoje, familiarizado com as disciplinas do amor apaixonado?
O cancioneiro fez-se carne, que se fez texto, sem parar a ação, que descansou (para explodir?) no palco, refrescando as inteligências. Na instauração de interações com as “figuras” presentificadas, com atuações bem conduzidas, também se amarram especificidades das artes cênicas nas nossas inefáveis formas de ser, registrando a marca religativa das pesquisas em curso no campo. Corpo é memória e é som, que é corpo e é história, memória em curso. O som é um clima e algo mais arranjado nos tratos com o homem por dentro de lances desejantes e lingüísticos que toda boa mitologia, filosofia e até mesmo psicologia desenvolvem. Os compostos de “as buarquianas” operam ainda com altos e baixos das próprias diversidades incontornáveis e inevitáveis de forma a agarrar melhor as múltiplas atenções do público na seqüência criativa da montagem, do tratamento de textos às encenações corporais oscilando para a expressiva contrastação (expressionista?) da naturalidade dos pensamentos. “Você vai participar” é mote que pode ser menos enganador, mas se exagero sem fazer escândalo é também por conhecer algumas outras pessoas na produção que entabulavam diálogos questionadores em plenas festas “climatizadas”, outra que tem trajetória na música e ainda a “diretora cênica” (magistral Arlete Cunha) com suas proposições pregnantes onde quer que estivesse(m), para não falar do iluminador ou d@s jovens “artistas-monumento” em cena.
A propósito, a proposta me pareceu incidentalmente novidadeira (me parece “ousadia”, ao menos bem mais que ignorância) , mas não freqüento os teatros, apesar dos indicadíssimos festivais na PoA, nem “li” maiores paradas do teatro pós-dramático: uma construção oficineira (?) arranjada (pesquisada), pelas ações cênicas, pelas tabelas do drama emendado na seqüência do encontro e pela apropriação que cada atuador realiza e opera sobre o material em jogo ou questão. Não há nenhuma benevolência para com o canto, o que me choca/ou: ele é costura à vista, crua em relação ao nosso couro, curtido com todos os vernizes sociais concebidos pelo velho Francisco, com que tão estreitamente trama. Ele é fruto dos encontros, da vida, sem paradas para empostações, sem a técnica dos conservatórios conhecidos, com a veia das ruas, a afetividade latejante das personas, a naturalidade em contraponto aquele com as figuras de comédia e outros legítimos jogos de caricaturização lúdica. Do canto se fala, do canto se cala. No prospecto também se fala, Alá seja louvado, da construção, do zelo pelo com-posicional, digamos, de quem tem aquela ingrata missão de cortar, deixar de fora, selecionar trechos e passagens da fortuna artística complexa do autor encenado.
Como não sou do ramo, fica a indicação para que, se algum parceiro da área resolver conferir, me passe uma letra opinativa ou mesmo noção, digamos, mais crítica. Passo a passo, o passado não passa, nem pára.


*ethon fonseca é filósofo, professor, quadrinista e amigo da galera!